segunda-feira, 6 de março de 2017

REFLEXOS COM RUBEM ALVES


Somente os pássaros engaiolados são dignos de confiança. Pássaros engaiolados não fogem. Mas, ao se engaiolar o pássaro, perde-se a beleza de seu voo, que era o 
que se amava.
Pássaros engaiolados se transformam em patos gordos. Patos gordos são dignos de confiança: nem podem nem querem voar. Os espaços vazios não os fascinam. Nunca olham para cima, só para baixo. Nem sabem da existência do céu. Já os pintassilgos são indignos de confiança. Sabem voar. Basta que a porta da gaiola se abra para que voem.
Mais fundamental que o amor é a Liberdade! A liberdade é o alimento do Amor!
O Amor é pássaro que não vive em gaiola! Basta engaiolá-lo para que ele morra!
Ter ciúme é reconhecer a liberdade do amor!
O desejo de liberdade é mais forte que a Paixão!
Pássaro eu não amaria quem me cortasse as Asas!
Barco eu não amaria quem me amarrasse no Cais!

Rubem Alves


                                               
REFLEXÃO
Liberdade, amor, culpa, medo, insegurança, tudo isso compõe as relações humanas. No fascínio das paixões, como pensar a liberdade de si e do outro, permitindo amar e sendo amado, porém deixando o outro livre, possibilitando a ele, fazer suas escolhas e renúncias?
Como se manter preenchido e inundado pelo fogo da paixão e pela serenidade do amor, sabendo que o seu medo pode transformar o outro em “pato gordo”, preso em si mesmo, infeliz, amarrado em seus desejos, ideais e fantasias? 
Se o amor é liberdade, por que resistimos tanto em soltá-lo, fazendo com que esse sentimento vá, aos poucos, murchando, encolhendo, ao ponto de morrer e, principalmente, com a sensação de nunca ter sido pleno, nunca ter sido ele mesmo?
O que é isso, que faz com que não consigamos possibilitar ao outro poder ser, ou se transformar, em um “pintassilgo”?
Consequentemente também nos amarramos e não nos damos a chance de voar!


Rubem Azevedo Alves (1933-2014) foi um psicanalista, educador, teólogo, escritor e ex-pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.

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