sexta-feira, 28 de abril de 2017

EU NUNCA FALEI QUE GOSTO DE VOCÊ


E tudo começou assim... “Posso te adicionar à minha rede de amigos?”
Sem dúvida, ele nunca falou que gostava dela, talvez do jeito comum, trivial, mas falou em forma de poemas e canções. Ela sim, usou a forma mais comum para expressar aquilo que estava sentindo: as expressões “Gosto de Você”, “Amo Você”.
Tomado por um ódio incontrolável, por ela tê-lo excluído de seus contatos, ele diz: “Eu nunca falei que gosto de você”.
Ah, o amor é mesmo tão contraditório, ama-se e odeia-se em frações de segundos. Na verdade, o amor é assim contraditório, ou as pessoas é que assim o são?
Por que será que, no momento em que estamos mergulhados e invadidos por este sentimento, nos sentimos tão fortes e, ao mesmo tempo, tão vulneráveis? Por que esse sentimento é tão construtivo e tão poderoso, porém, somos capazes de destruir nosso objeto de amor, simplesmente, com a força das palavras? O quão narcísico ficamos no momento em que estamos nessa relação com o Outro, ou nos sujeitamos a permanecer submissos aos desejos e devaneios desse suposto amor?
Jacques-Alain Miller em entrevista para a Psychologies Magazine, diz que amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará uma verdade sobre si. Afirma que, para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar.
O que buscamos no Outro quando nos sentimos apaixonados? Uma resposta para as nossas faltas, angústias e dores existências? O desejo incansável de nos sentirmos desejados por esse Outro?
Buscamos, buscamos, e, ao mesmo tempo, não sabemos ao certo o que buscamos...

segunda-feira, 6 de março de 2017

REFLEXOS COM RUBEM ALVES


Somente os pássaros engaiolados são dignos de confiança. Pássaros engaiolados não fogem. Mas, ao se engaiolar o pássaro, perde-se a beleza de seu voo, que era o 
que se amava.
Pássaros engaiolados se transformam em patos gordos. Patos gordos são dignos de confiança: nem podem nem querem voar. Os espaços vazios não os fascinam. Nunca olham para cima, só para baixo. Nem sabem da existência do céu. Já os pintassilgos são indignos de confiança. Sabem voar. Basta que a porta da gaiola se abra para que voem.
Mais fundamental que o amor é a Liberdade! A liberdade é o alimento do Amor!
O Amor é pássaro que não vive em gaiola! Basta engaiolá-lo para que ele morra!
Ter ciúme é reconhecer a liberdade do amor!
O desejo de liberdade é mais forte que a Paixão!
Pássaro eu não amaria quem me cortasse as Asas!
Barco eu não amaria quem me amarrasse no Cais!

Rubem Alves


                                               
REFLEXÃO
Liberdade, amor, culpa, medo, insegurança, tudo isso compõe as relações humanas. No fascínio das paixões, como pensar a liberdade de si e do outro, permitindo amar e sendo amado, porém deixando o outro livre, possibilitando a ele, fazer suas escolhas e renúncias?
Como se manter preenchido e inundado pelo fogo da paixão e pela serenidade do amor, sabendo que o seu medo pode transformar o outro em “pato gordo”, preso em si mesmo, infeliz, amarrado em seus desejos, ideais e fantasias? 
Se o amor é liberdade, por que resistimos tanto em soltá-lo, fazendo com que esse sentimento vá, aos poucos, murchando, encolhendo, ao ponto de morrer e, principalmente, com a sensação de nunca ter sido pleno, nunca ter sido ele mesmo?
O que é isso, que faz com que não consigamos possibilitar ao outro poder ser, ou se transformar, em um “pintassilgo”?
Consequentemente também nos amarramos e não nos damos a chance de voar!


Rubem Azevedo Alves (1933-2014) foi um psicanalista, educador, teólogo, escritor e ex-pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

“ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE”


Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias de nossas vidas, até que a morte nos separe.

Todos nós já ouvimos centenas de vezes essa frase, pronunciada pelos noivos, durante uma cerimônia de casamento. Mas como podemos pensar esta questão do “até que a morte os separe”, se a vida é tão imprevisível? Se cada casal, ainda com suas afinidades, são pessoas diferentes, cada qual, com suas particularidades, desejos, comportamentos e atitudes tão singulares?  Será possível manter um casamento feliz, sentindo-se realizado “até que a morte os separe?” E se isso não for possível, ainda assim, o “até que a morte os separe” tem de prevalecer? Qual o preço a se pagar?
A busca da felicidade e a família feliz, fundada na afetividade, são os fundamentos que passam a ser considerados em todos os relacionamentos. Que todos buscam suas realizações afetivas e amorosas, disso não há dúvida. Segundo Ivan Capelatto, o casamento é a busca angustiante de algo que, imaginariamente, acreditamos que possa preencher nossas faltas, nossos vazios. Porém, com o passar do tempo, percebe-se que isso é uma doce ilusão! Nem tudo é tão lindo e perfeito, as relações vão aos poucos se desgastando...
As características da contemporaneidade - dentre elas ressalta-se a instantaneidade, a ambivalência, a fluidez e precariedade nas relações, a fragmentação, o individualismo e o consumismo -, muito contribuíram para o enfraquecimento dos laços familiares.

Ele faz o noivo correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a casa caia
Até que a casa caia

Ele é o empregado discreto
Ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho

Certo é que para se viver em sociedade, os homens têm que se submeter às leis, que geram restrições. Porém algo sobra, ou escapa, o que causa um mal-estar. As leis foram impostas em nossa sociedade com a finalidade de estabelecer normas para uma boa convivência com as pessoas que nos rodeiam. Entretanto, na grande maioria das vezes, acabamos por nos tornar dependentes e submissos à Lei. Se existe a Lei é porque existe o Desejo. Se existe o Desejo, o que fazer com ele? Submeter-se à Lei ou ao Desejo? Muitas vezes, uma escolha angustiante...
Encontros e desencontros fazem parte da vida do Sujeito. Em algum momento, ele encontra aquele Outro idealizado, que o completa, que faz falta, e passa a dar sentido à sua vida. Mas, muitas vezes, esta mesma realidade pode levar o Sujeito a um sofrimento de perda diante de uma situação expressa em uma possível separação.

Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida


OBS.: Os trechos escolhidos acima são da música “O Casamento dos Pequenos Burgueses”, de Chico Buarque de Holanda (1977-78).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

ALMA FEMININA


A sexualidade feminina mudou muito ao longo do tempo. Ideias e atitudes, masculinas e femininas, acerca da sexualidade têm diferenças marcantes, mas que nem sempre são percebidas. Isto trás entraves para a relação, principalmente quando não são expressas...
É sobre essas questões que esse vídeo de Fabrício Carpinejar nos faz pensar.




FABRÍCIO CARPINEJAR é poeta, cronista e jornalista. O vídeo é referente ao programa Café Filosófico CPFL de março/2016. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O QUE QUER UMA MULHER?


Ah... O que quer uma Mulher? Ou será, o que querem as mulheres? Ou ainda, o que quer “esta” mulher? Tantas perguntas, dúvidas e questionamentos, cercam o universo feminino. Talvez um enigma a ser desvendado pelos estudiosos, pelos homens com as quais convivem e, sem sombra de dúvida, por elas mesmas.
Mas será que as próprias mulheres sabem, realmente, o que querem?
Carinho, atenção, respeito, amor, companheirismo... Tudo isso faz parte do repertório de uma mulher quando questionada à respeito do que ela gostaria de um homem. No entanto, existem homens que oferecem todos esses atributos, e ainda assim, no discurso feminino, isso não é suficiente.
A pergunta “O que quer uma Mulher?”, foi feita por Freud a Marie Bonaparte, sua analisanda e discípula direta, com uma boa dose de desânimo e espanto. Sentia-se diante de uma espécie de “enigma” que não conseguia desvendar: “A grande pergunta que não foi nunca respondida e que eu não fui capaz ainda de responder, apesar de meus trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina é – o que quer uma mulher?” (Bertin, 1989, p.250).
Claro que as mudanças ocorridas, relativas ao lugar social da mulher na cultura e no contexto familiar, propiciaram a esta sair de um lugar, até então, praticamente materno e voltado às necessidades da família, para uma posição mais ativa. Agora, essa mulher não se dedica somente a maternidade e o lar, ela cresceu no mercado de trabalho, conquistando um lugar que, até então, era exclusivo aos homens, ou pelo menos, quase que exclusivo.
Porém, tudo tem um preço. Assim como as histéricas do século XIX que Freud tratava, pareciam protestar, com seus sintomas, contra a fixação de suas vidas ao lar e à maternidade, os sintomas femininos contemporâneos parecem denunciar o mal-estar e as contradições com as quais as mulheres se confrontam na atualidade, sejam elas mães ou não (Nunes, 2011).
Ora, se todo o trabalho e protesto da revolução feminista tinham como objetivo “libertar” as mulheres de uma vida quase que completamente aprisionada dentro de regras e limitações impostas por uma sociedade machista e patriarcal, era de se esperar que essas mulheres pudessem se realizar, serem felizes, gozando de tal liberdade. Entretanto, não é bem isso que vemos.
Sim, as mulheres assumiram mais papéis, mais funções, consequentemente, as cobranças vieram. Os sintomas? Não seriam eles um grito de socorro, visto que essa liberdade trouxe uma quantidade muito maior de coisas a serem feitas? Acúmulo de tarefas, obrigações quanto ao trabalho, à família, filhos, escola, amigos...
Mas, por que será que ainda assim, o desconforto emocional, a sensação de vazio, de não serem compreendidas e amadas, ainda perseguem as mulheres?
Afinal, o que querem as mulheres? Muitas e diversas coisas, certamente, mas quando damos ouvidos às suas queixas, como fez Freud com suas histéricas, descobrimos que, antes de tudo, elas querem liberdade e condições que lhes permitam desejar sem precisar pagar o alto preço da culpa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERTIN, C. (1989) A última Bonaparte. Rio de Janeiro: Escuta.
NUNES, S. A. (2011) “Afinal, o que querem as mulheres? Maternidade e mal-estar”. Psicol. Clín. (vol.23, nº2). Rio de Janeiro: IMS/UERJ.